quarta-feira, 28 de julho de 2010

construçaõ do espaço

A construção de espaços e a cultura da infância

"A escola surge, então, como lugar onde é possível partilhar vidas e estabelecer múltiplas relações entre muitas crianças e adultos."

Malaguzzi, 1993

A Constituição Brasileira, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 estabelecem que é dever do Estado, por meio dos municípios, garantir a educação infantil, ou seja, o atendimento em instituições especializadas a todas as crianças de 0 a 6 anos. O grande desafio entretanto é oferecer estratégias de atendimento com qualidade às crianças de 0 a 3 anos, que a partir de 1996 passa a ser responsabilidade das secretarias municipais de educação em regime de cooperação com estados e governo federal.

Pesquisas internacionais e nacionais demonstram a importância de se investir na primeira infância divulgando argumentos científicos (neurociência), econômicos e educacionais. Tais argumentos demonstram que a cada dólar investido nos primeiros anos de vida, iremos garantir um retorno de 7 dólares em educação, saúde, recuperação e sistema prisional. Do ponto de vista social, já sabemos que uma criança beneficiada com educação infantil de qualidade terá 18% de chance a mais de ter uma melhor profissão e assim poder viver com mais qualidade. A escolaridade aumenta e o círculo da pobreza se rompe. Muitos são os teóricos que vêm apresentando inúmeras razões para se investir na educação nesta faixa etária em particular de 0 a 3 anos, demonstrando benefícios para todos, principalmente para os futuros cidadãos que certamente terão mais oportunidades de sucesso na vida e na escola. Entretanto, o grande desafio para que ocorra esta educação de 0 a 3 anos é justamente buscar o comprometimento dos gestores municipais na construção de uma política que promova uma cultura da infância em seu município.

Este tem sido um dos desafios assumidos pela Fundação Orsa. Comprometida com as questões emergentes na área da educação, esta entidade não governamental tem como missão a formação integral da criança e do adolescente em situação de risco pessoal e social, e executa programas em parcerias com o poder público, por meio de cooperação técnica, objetivando a criação o fortalecimento de uma política pública integrada contemplando a educação, a saúde e a promoção social.

Esta possibilidade nasce do Recurso Semente[i] e dos investimentos de diversos parceiros governamentais, não governamentais e de empresas socialmente responsáveis, como o Grupo Orsa.

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Chegança

O Projeto de Gestão Pedagógica para a Infância (PROGEPI) que estaremos relatando a seguir resulta de uma parceria entre um município do Estado de São Paulo (Caraguatatuba) e a Fundação Orsa que se estruturou através de:

1. realização de um diagnóstico local da situação de atendimento das crianças de 0 a 3 anos;

2. elaboração de um planejamento estratégico para 3 anos (considerando o final do mandato do atual prefeito), a ser executado em parceria com a Secretaria de Educação

3. mobilização da sociedade local e formação continuada e sistemática dos profissionais envolvidos com esta faixa etária;

4. reuniões temáticas com as equipes das Secretarias de Educação, Saúde, Obras e Finanças para as definições necessárias à construção dos centros de educação infantil e assistência social, na cidade.

Conhecer os direitos da criança, as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil, as normas de credenciamento e funcionamento das instituições e os critérios de qualidade inspirados nos pressupostos teóricos internacionais e na LDBEN, constitui o cenário de aproximação e capacitação junto aos técnicos das Secretarias Municipais com a participação, nas reuniões, dos Conselhos de Educação, da Criança e do Adolescente e da Saúde; garantindo um espaço na cidade para se discutir coletivamente a cultura sobre a infância.

A educação infantil, prioritariamente de 0 a 3 anos, constituiu-se uma da metas para Caraguatatuba que, por essa razão construiu e inaugurou em 3 anos, 9 centros de educação infantil (CEI"s) em áreas com altos índices de desemprego, uso de drogas e alcoolismo familiar. A Fundação Orsa assumiu a responsabilidade de compartilhar o desafio da cidade na criação e gestão técnica, administrativa e pedagógica destes centros.

Uma ação inicial resultante desse convênio de cooperação técnica foi a realização do programa de formação dos profissionais de educação infantil, envolvendo 120 profissionais atuantes. Este programa é replicado há 3 anos contemplando uma formação continuada sistemática para os profissionais envolvidos no PROGEPI, bem como para todos que iniciam seu trabalho nos Centros. O programa contempla encontros sistemáticos presenciais e ações diretas nas unidades, promovendo uma reflexão sobre o desenvolvimento infantil, as concepções de educação, criança, linguagens expressivas e projetos pedagógicos direcionados para a resignificação das práticas de educação infantil. Um diferencial é o novo olhar que se estabelece para com a criança de 0 a 3 anos e suas famílias, o que possibilita a mudança de paradigma quanto à participação das famílias e comunidade nos centros de educação infantil.

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Criando espaços e ambientes

O PROGEPI pressupõe que o desenvolvimento de uma prática diferenciada com as crianças de 0 a 3 anos de idade pautada pelo respeito ao seu desenvolvimento, precisa articular os direitos, os espaços, ambientes e as linguagens expressivas como a arte, o movimento e o brincar.

Dessa forma, a prioridade foi a adequação dos espaços externos e internos que favorecessem a prática lúdica com a participação dos profissionais contratados e familiares do entorno de cada centro. Esta organização dos espaços fez-se necessária para favorecer a presença do brincar, tendo em vista que a criança se conhece e compreende o mundo que a cerca por meio do brincar e das brincadeiras, além de desenvolver processos psíquicos, como a imaginação, a linguagem, o pensamento, a memória, a criatividade, a expressão e a concentração.

Os espaços internos foram organizados por áreas semi abertas (com 3 lados fechados) tornando-se assim áreas dinamizadas pelas crianças, que se comunicam entre si, criam e inventam, sem depender o tempo todo do educador. Sem oferecer muitos espaços especializados, a delimitação não quer dizer inflexibilidade de materiais e brincadeiras. Há um equilíbrio entre a existência de locais definidos e abertos para inventar brincadeiras, sendo ainda possível transformar estes espaços em ambientes temáticos conforme as necessidades do trabalho pedagógico.

A criação dos ambientes também contou com a participação direta da família e comunidade refletindo a cultura de cada instituição. A criação de uma identidade em cada centro ao se implantar o PROGEPI levou em consideração as características de cada bairro e da cidade como um todo, priorizando sempre as necessidades das crianças para um desenvolvimento integral pleno. Esta organização de ambientes segue os princípios das dimensões do ambiente: o aspecto físico, a sua funcionalidade, a oportunidade de proporcionar relacionamentos e a adequação a temporalidade. Em publicações da área poderemos obter mais informações sobre estas dimensões[ii]. Dessa forma, a organização dos espaços e dos materiais coletados em cada CEI facilitou o planejamento das atividades. Nos ambientes organizados, não há um modelo único fixado e o desenrolar do jogo educativo cotidiano indica a organização e a reorganização necessárias.

Para esta ação foi considerado não apenas a idade da criança, mas a sua história de vida, sua família, meio cultural e as características peculiares de cada grupo de criança. Esse ambiente desafiante e estimulante oferece, ainda, os brinquedos construídos e distribuídos pelas professoras e famílias, em todas as

áreas de cada centro de educação. Surge então a discussão de rotinas.

Um aspecto importante a ser destacado é que toda a construção (aspecto físico e pedagógico) de cada CEI e sua organização tem a criança como protagonista, e em vista disso as atividades vivenciadas pelas crianças não estão organizadas em blocos únicos seguindo a hora-relógio e a perspectiva do adulto, pois se pensou mais em termos de tempo disponível. Assim, os grupos de crianças ocupam durante todo o dia os diferentes espaços criados para o brincar, para vivenciar o imaginário, para a expressão por meio de diversas linguagens. Os grupos rodiziam estes ambientes acompanhados de adultos que atuam como problematizadores, facilitadores , criando situações para que as crianças possam atuar. Nesta rotina predomina o interesse e as necessidades das crianças assim como o envolvimento na interação entre as crianças, os adultos e os brinquedos. Assim, é possível acompanhar o ritmo das crianças que, sendo curiosas, estão sempre em movimento, explorando e investigando. Também, é possível integrar o cuidar e o educar administrando melhor o tempo que é vivido por estas crianças nos CEIs.

No PROGEPI, todos os espaços, momentos de relacionamento e desenvolvimento integram este cuidar ao educar, pois sabendo ser uma relação indissociável, é permitida pela rotina diária que contribui efetivamente na criação de vínculos afetivos. Esta relação se estabelece a partir do papel do adulto e direciona a construção de uma rotina diária que permite oportunidades para que ele (adulto) estabeleça uma relação saudável com todas as crianças, aprendendo a observar, intervir, brincar junto e permitir seu desenvolvimento.

Um exemplo da criação coletiva de um dos ambientes é a Roda Mágica, onde todos participaram da organização desta roda pintada na área externa de um CEI após descobrirem a importância da criação artística como um meio de expressão das crianças. Assim, mães, avós, pais e demais parentes tomaram parte na pintura da Roda Mágica, que se tornou referência de encontro das crianças e de seus primeiros passos.

As famílias e a comunidade vão aos poucos aprendendo a participar e compartilhar a responsabilidade pela educação das crianças de 0 a 3 anos e neste processo, se integram em oficinas que são oferecidas semanalmente como construção de brinquedos com material reciclável, confecção de bonecas usando meias, na organização de projetos que incentivam a leitura de histórias infantis e como contar histórias para os bebês, aprendendo sobre o desenvolvimento, a importância do brincar, e a ter o CEI como referência na comunidade de educação pública.

Nesta participação, pode-se observar muitas famílias organizando e brincando em espaços criados como:

· Acampamento legal: onde vivenciam outra forma de se viver e podem explorar acontecimentos como aniversários de bonecas, piquenique, contato com animais e leitura de histórias;

· Casinha: cada CEI criou diferentes espaços para a criança brincar de casinha com materiais disponíveis vivenciando os diferentes papéis sociais como mamãe, avó, pai, tios, permitindo a reprodução de hábitos e rotinas, Partindo deste ambiente , cada CEI cria outros espaços de reprodução de vida diária como vendinha, hospital, a praia, entre outros.

· Aqualândia: área desenvolvida devido ao calor intenso da região. Permite que a criança explore duas situações diferentes: uma, na qual se refresca em dias muito quentes; e outra, em que enche e esvazia recipientes, dá banho em bonecas e carrinhos, por exemplo.

· Pintando sete: atividades de pintura e construção permitindo uma aproximação com a cultura brasileira dentro de projetos pedagógicos;

· Canto da vovó: casinha construída no espaço externo pelos familiares e professores para passeios e leitura de histórias.

E tantas outras áreas que foram se constituindo a partir de provocações durante os encontros de formação continuada, pelas necessidades das crianças, como resposta aos projetos pedagógicos e metas assumidas pelo grupo de profissionais.

Os princípios presentes em todo programa de formação continuada, que permite a reflexão e a construção de novas práticas nos ambientes dos CEI"s, são:

· O direito à infância como exercício de cidadania;

· O brincar como essencial ao ambiente de aprendizagem;

· O respeito à história de vida dos atores envolvidos no processo educativo;

· A integração do cuidado e educação;

· A inserção da criança no contexto social e cultural;

· O respeito à diversidade social e cultural;

· A valorização da autonomia, identidade e expressão da criança;

· A ética como pressuposto de relações interpessoais;

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Rede de apoio

Na proposta de se construir uma cultura sobre a infância na cidade transformando a visão de educação de 0 a 3 anos como prioridade para o desenvolvimento humano, o PROGEPI criou a rede de apoio aos educadores e equipes dos centros de educação infantil. São dentistas, psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogas, nutricioinistas e médicos da cidade que realizam ações planejadas e organizadas no calendário, bem como participam das reuniões com professores, famílias no programa de formação continuada.

Com isso, a proposta de ação-reflexão pelos educadores e equipes, está sendo construída coletivamente, alcançando aos princípios estabelecidos na proposta da Fundação Orsa, conferindo um novo significado à prática, contribuindo para a integração das ações entre secretarias colocando a criança pequena como foco de toda uma política pública.

Hoje, o PROGEI é reconhecido no município, por vereadores, conselhos municipais e sociedade em geral tornando-se referência para o atendimento de crianças na rede pública.

Começando em 2001 com duas unidades, em 2003 temos 2550 crianças convivendo em 9 centros de educação infantil que transformaram a vida de muitas famílias e do futuro destes pequenos cidadãos.

Podemos afirmar que o PROGEPI faz a diferença quando:

· Cria uma atmosfera de alegria, afeto e entusiasmo;

· Cria situações de mediação entre as crianças, as suas emoções e o seu ambiente;

· Organiza coletivamente o espaço e o tempo;

· Organiza as turmas considerando a necessidade de convivência;

· Dialoga com a família e comunidade por meio de diferentes estratégias;

· Investe na formação continuada dos profissionais que atuam com as crianças pequenas;

· Avalia regularmente, e no coletivo, o seu projeto pedagógico;

· Cria brinquedos e brinca com a criança;

· Cuida e educa no cotidiano vivo;

· Define a inclusão como um projeto da escola que incorpora diversidade

como eixo central da tomada de decisões.

Hoje, já com a aplicação de instrumentos de avaliação identificamos alguns impactos do PROGEPI na cidade:

· Aumento no atendimento da demanda; em 2001 duas instituições e em 2003 nove centros (de 215 a 2550 crianças);

· Reconhecimento na cidade da importância da educação de 0 a 3 anos;

· Reconhecimento público dos gestores e vereadores;

· Direitos e diretrizes concretizadas em forma de qualidade para todas as crianças;

· Empregabilidade, compromisso e entusiasmo.

· Implementação da política pública em educação infantil (aprovado em Plano Municipal);

· A cultura da infância na cidade e da formação continuada;

· Centro de referência em atendimento em educação infantil;

· Conceito de educação infantil e projeto disseminado.

Para finalizar, vale destacar que esta metodologia tem apresentado resultados exitosos que comprovam os argumentos em torno da participação da família e comunidade na construção de uma cultura voltada para a primeira infância , na formação continuada de profissionais e, finalmente no planejamento integral elaborado coletivamente: ONG e prefeitura, otimizando assim a utilização dos recursos financeiros e garantindo a educação de 0 a 3 anos na agenda política da cidade , concretizada no Plano Municipal. Assim, podemos acreditar que o caminho traçado e percorrido poderá abrir novas trilhas e sonhos para toda uma cidade, mas jamais voltaremos ao mesmo cenário de 2001.

Como Fernando Sabino nos diz: De tudo ficaram 3 coisas; a certeza que estamos sempre começando , a certeza que seremos interrompidos antes de terminar e, a certeza de que é preciso continuar...


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