A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PEDAGÓGICO NA CRECHE : UM TEMA EM DISCUSSÃO.
Liciana Gobbi Celante - Mestranda da Faculdade de Educação - UNICAMP
O presente trabalho é parte integrante da pesquisa em andamento junto ao programa de pós-graduação da Faculdade de Educação, UNICAMP, intitulada “Os Planos de Desenvolvimento da Unidade das Creches Municipais de Jundiaí: avanços e retrocessos”.
O projeto pedagógico, quando compreendido como produto da discussão coletiva, atua como mediador e como plano de ação de toda a comunidade escolar; comunidade escolar aqui compreendida como todos aqueles que vivenciam o processo educativo na creche.
A possibilidade da gestão “autônoma” do plano pedagógico é recente, e é fruto de uma luta histórica, conforme nos revela a professora Vera de Rossi em sua pesquisa "Resistindo ao sequestro das experiências: gestão de educadores no projeto pedagógico de Campinas, 1984 - 1988", ao evidenciar a luta diferente na qual os professores estiveram engajados naquela década: a luta pedagógica, ou seja, a luta pela conquista da autonomia, a luta pela possibilidade de que os professores participassem ativamente da construção do projeto pedagógico das instituições em que trabalhavam.
Se pensarmos que esta conquista inicialmente se deu no âmbito do ensino formal, e que isto ocorreu a não muito tempo; ao voltarmos nosso olhar para a educação infantil, em especial no que tange à educação de crianças de 0 a 3 anos, percebemos o quanto ainda é necessário avançar. No sistema municipal de Jundiaí, a experiência de construção do projeto pedagógico nas creches, é recente e fortemente marcada por uma visão equivocada do que este documento representa dentro da organização do trabalho pedagógico.
A especificidade da faixa etária, o papel do coordenador pedagógico na construção do projeto; o nível de participação da comunidade escolar no processo e o “modelo” educativo presente no texto dos documentos, são objetos de nossa reflexão.
A discussão acerca do Projeto Pedagógico, é muito pequena; em geral ela ocorre internamente às instituições, que anualmente avaliam e reestruturam seus projetos para o ano seguinte. Desta forma, falta uma reflexão mais ampla sobre qual o papel deste documento dentro das instituições escolares, em especial nas que atendem crianças de 0 a 3 anos, que pela especificidade da faixa etária, deve oferecer uma estrutura, um atendimento, um espaço físico e profissionais que compreendam as particularidades das crianças em tenra idade.
A partir da Constituição de 1988, a educação de crianças em tenra idade, passa a integrar a pauta de discussões sobre as políticas educacionais para a infância na medida em que a educação infantil foi incorporada como primeira etapa da educação básica, e assim, surge a necessidade de estabelecer parâmetros para este atendimento.
No entanto, é preciso reconhecer, que a própria pedagogia contribuiu para a descaracterização da educação infantil, pois, em sua maioria, os cursos de formação de professores tem como foco a escola formal de ensino fundamental; não existe uma formação diferenciada e específica para o profissional que atuará com crianças de 0 a 3 anos, como é possível observar em outros países como a Itália por exemplo, onde os educadores são formados de acordo com sua área de atuação. Aqui no Brasil, acreditou-se poder “importar” o mesmo modelo do ensino fundamental e aplicá-lo na creche, escolarizando assim o espaço de educação infantil, e descartando as peculiaridades deste nível de ensino.
Almejando oferecer um caráter mais “educativo” ao atendimento da creche, implantou – se uma rotina e um currículo, que insere os pequenos no universo fragmentado e descontextualizado do ensino formal.
É portanto, afim de que se supere este panorama, que a educação infantil para Souza (1988), “pode ser vista como uma proposta alternativa, que visa a democratização da educação, evitando a reprodução das desigualdades sociais tão comuns na escola de primeiro grau” (p.15), é enfim, ir em busca de algo criativo, é ter uma identidade própria, para que a educação infantil seja um espaço de vida por si só, e não em função de um período que está por vir.
Com a LDB de 1996, ficou estabelecido que cada instituição deveria gerir seu projeto pedagógico, mas até hoje, são grandes as dificuldades para produção, discussão e compreensão deste documento. Permanece ainda a idéia de uma exigência burocrática, ao invés de compreendê-lo ( o projeto ) como um plano de ações.
A elaboração de um projeto pedagógico para a creche é algo complexo, que exige muito estudo e discussão, pois sendo a creche, um ambiente onde co-atuam, segundo Bonomi, (1998,p.172) “três protagonistas: o adulto, a criança e a família”, este documento deve contemplar cada um deles, suas propostas, seus sonhos, seus direitos e suas necessidades, deve ter e ser a voz de cada um deles.
Integrar a criança, significa vê-la como sugere Rinaldi (1999) “um ponto é fundamental: a imagem das crianças... a ênfase é colocada em vê – las como sujeitos únicos com direitos, em vez de simplesmente com necessidades”, somente vendo a criança com estes olhos, é possível pensar numa proposta efetiva, que valorize a criança, que a conceba como ser ativo, criativo, curioso, espontâneo e capaz de múltiplas relações.
Para Saitta (1998), “tornar os educadores protagonistas, significa torná – los conscientes das próprias escolhas educacionais” ( p.116), temos então o indício de que, é preciso romper com os antigos modelos, onde, ao professor é delegada somente a execução alienada daquilo que foi pensado por outros; um educador protagonista (professor ou pajem) pensa, discute, pesquisa e se faz parte integrante na definição da trajetória de seu grupo.
Reconhecer que a educação infantil é complementar à família, significa incluí-la na construção e na efetivação do projeto desta creche de maneira efetiva, numa parceria concreta, já que a família se constitui no terceiro protagonista deste espaço, que também é de educação de adultos.
O fundamental é conceber que “as crianças tem direito, antes de tudo, de viverem experiências prazerosas” (Foni,1998- p.149), aprender é fantástico, o mundo está repleto de descobertas a serem feitas e porque isto não pode estar presente dentro da creche? Pode e deve, afinal o lúdico, a imaginação, o corpo, a mente, etc. compõem algumas das dimensões humanas, e devem estar presentes ao se pensar um projeto pedagógico para crianças de 0 a 3 anos.
Após 1988, quando a Constituição incorporou a Educação Infantil como parte da Educação Básica, e como um direito da criança, as discussões acerca de uma reconstrução sobre a concepção de creche e de educação infantil, levou um novo profissional para atuar na creche: o professor. Este novo profissional que trouxe consigo idéias e concepções, que senão novas, diferentes, o que gerou muito conflito entre os diversos profissionais que atuam na creche, por conta de uma eminente mudança de paradigmas; o que ainda permanece em várias instituições e sistemas.
Segundo Fúlvia Rosemberg (1999), um grande problema enfrentado pela educação infantil, é que historicamente ela sempre foi vista pelos professores como um lugar de passagem, uma etapa onde havia ausência de especialização, e funcionava como um “filtro” para o ensino fundamental. Há pouco tempo é que os professores estão permanecendo na educação infantil por opção e isto é sem dúvidas um bom sinal.
O professor de creche, no entanto, é ainda marcado fortemente pela escolarização devido à sua formação, é fundamental que este profissional construa uma gama de conhecimentos acerca da infância, da família, da sociedade, das raças, gêneros; para que possa ter clareza de seu papel, em parceria com os outros protagonistas da educação infantil na construção do projeto pedagógico.
Compreendendo a creche, enquanto este espaço de muitos atores e destes três protagonistas, pensamos que deve haver ali, um profissional, competente para articular estas diferenças na construção de um documento coletivo, fruto da participação de cada um deles, e da contribuição de suas experiências, pesquisas e reflexões. Este a nosso ver é o papel do pedagogo enquanto coordenador pedagógico em instituições de educação infantil, que pensando a partir dos pressupostos aqui colocados pode contribuir para a construção de uma identidade própria para esta primeira etapa da educação básica.
Como define Saitta (1998), “a posição daquele que coordena o grupo deve ser definida como central” ( p.116), interessante perceber que o autor fala em papel central, e não centralizador, e isto faz uma enorme diferença, afinal, ter uma posição central significa ser o elo, ser a conexão entre os múltiplos olhares e as múltiplas possibilidades, é enfim o coordenador pedagógico aquele que discute, instiga, acompanha, reflete, e estabelece em todo o processo uma relação de parceria com os demais.
Saitta, (1998), quando fala sobre a coordenação pedagógica, utiliza bastante o termo “coordenador/condutor” (p.118), pois acredita que cabe ao coordenador, algo mais, que vá além do pedagógico, exige sim uma capacidade de orientar o grupo tanto no que se relaciona aos conteúdos, quanto nas relações interpessoais que se estabelecem, seja entre o grupo de profissionais, entre a família e a creche, ou entre os profissionais e as crianças, enfim, Saitta, nos auxilia a compreender, portanto a relevância deste profissional dentro da instituição.
O coordenador pedagógico, enquanto articulador de todo o processo precisa, balancear, a atuação dos três protagonistas, ou seja, como define Filippini, (1999),
“o pedagogo tem a tarefa complexa e multifacetada de promover um crescimento cultural e social dos sistemas para as crianças pequenas... sempre agindo como um elo entre as pessoas e os grupos de educação para a primeira infância, criando uma rede de recursos”. (p.127)
Interessante ressaltar que no Brasil, diferentemente de outras realidades, como a italiana por exemplo, que possui uma proposta muito bem elaborada para a educação de crianças, fruto de 30 anos de discussões, baseadas nos direitos da infância, e contemplando de forma ampla todas as dimensões humanas; a educação infantil aqui vem passando por modificações constantes, e isto, muitas contradições abarca, na medida em que ainda se busca algo original para a educação de crianças pequenas, original aqui compreendido como algo que seja próprio dela, e não copiado de outros níveis de ensino, como o fundamental, por exemplo.
Pensar enfim, a construção do projeto pedagógico na creche, nos leva a várias outras questões como a formação do profissional, a necessidade do estabelecimento de uma gestão democrática na instituição escolar, e a co-participação dos diversos atores e protagonistas do cenário educativo, o papel do coordenador pedagógico na creche, a construção de uma pedagogia e uma identidade própria da educação infantil, enfim, muitas são as questões a serem debatidas, ficam aqui, estas minhas provocações ...
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